O transporte no porto de Sampaio (1850)

31/08/2014

Gilciano Menezes Costa

Fonte: Jornal A Civilização

A Imagem presente nesta postagem foi publicada no Jornal a Civilização [1], no dia 31 de Agosto de 1850. O anúncio divulgava que o viajante que vinha da corte, através da navegação no rio Macacu, iria encontrar no Porto de Sampaio o transporte de “carrinhos” puxados por cavalos.

No Porto de Sampaio, localizado no rio Macacu, entre o Porto de Vila Nova e o Porto das Caixas [2], existiu intenso fluxo de pessoas e mercadorias. O viajante “alemão” Hermann Burmeister, visitando a região, mencionou a presença de cem passageiros no barco que o transportou até o Porto[3].

Para o período que Burmeister realizou a viagem, a navegação no rio Macacu era conduzida pelas “barcas de vapor Emprehendedora e Sampaiense do porto de Sampaio”, de propriedade do comendador Antonio da Silva Caldeira. As barcas saiam desse porto para a corte “as segundas, quartas e sextas-feiras e voltavam as terças, quintas e sábados”[4] .

No anúncio divulgado no jornal dizia que “no carrinho grande cabia até 6 pessoas para o transporte até o Porto das Caixas e daí a Vila de Itaborahy.” Os cavalos mais conhecidos nesse transporte eram os famosos “Sabiá, Botafogo, Andorinha e Melindre”. Devido à força e velocidade que esses cavalos possuíam, eles eram consideravelmente requisitados pelos viajantes, sendo mais encontrados no Largo do Comércio em Porto das Caixas. Atuavam nesse trabalho, seja como carreiros ou tropeiros, pessoas livres de berço mais humilde, libertos e escravos.

Essa movimentação no Porto de Sampaio diminuiu expressivamente, a partir de 1866, com a conclusão do prolongamento da estrada de Ferro de Cantagalo, da região de Porto das Caixas para Vila Nova (em Itambi), na medida em que essa obra rompeu com o intenso fluxo de pessoas e mercadorias que existia no porto, devido aos benefícios, para época, que a ferrovia proporcionou a esse transporte, seja pelo aumento da velocidade ou por uma melhor preservação das mercadorias transportadas. Diante desse contexto, o desinteresse de ações para desobstruir o rio Macacu se intensificou, sendo determinante para que, em 1867, os barcos a vapor deixassem de navegar até o Porto de Sampaio, indo apenas até o porto de Vila Nova [5].

A navegação a vapor na Baía de Guanabara foi iniciada em 1835, com o início do transporte entre a Corte Imperial e Nictheroy (Niterói) [6]. Diante da intenção em aproximar a Corte ao interior do Recôncavo da Guanabara, a navegação a vapor passou a ser realizada em alguns rios que deságuavam na Baía de Guanabara. A navegação a vapor no rio Macacu se insere nesse contexto e foi iniciada na década de 1850 e, embora outras formas de navegação tenham continuado a existir na região, os barcos a vapor conduzidos por "grandes empresas" tiveram suas atividades encerradas no início da década de 1870.[7]

Possivelmente, a região onde um dia existiu o porto está localizada nas propriedades pertencentes ao COMPERJ. Reconhecer o local e disponibilizar seu acesso representa uma valiosa forma de contribuir para a história de Itaboraí, assim como para o Recôncavo da Guanabara.

 

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Fontes e Bibliografia:


[1] Jornal publicado todos os Sábados de manhã. Subscreve-se na tipografia de João Hilário de Menezes Drummond na Vila de Itaborahy; Na Vila de Rio Bonito, na casa do Sr. Francisco Ignacio da Silva Passos; e na de Maricá, na do Sr. João Luiz da Cunha.
[2] GOMES, José Clemente; MASSOW, Hilário. Estado do Rio de Janeiro: composto sobre os últimos mapas existentes e de acordo com as estatísticas e demarcações oficiais. Rio de Janeiro : Laemmert, 1892.
[3] BURMEISTER, Hermann. Viagem ao Brasil através das províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais: visando especialmente a história natural dos distritos auri-diamantíferos. São Paulo: Martins, 1952. p.69.
[4] Almanak Laemmert. Almanak, 1851, p. 251.
[5] COSTA, Gilciano Menezes. A escravidão em Itaboraí: uma vivência às margens do rio Macacu (1833-1875). Dissertação de Mestrado. Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História, 2013. p. 154 e 167.
[6] NORONHA SANTOS, Francisco Agenor. Meios de Transporte no Rio de Janeiro - História e legislação (volumes 1 e 2). Rio de Janeiro, Tipografia do Jornal do Commercio. 1934. p. 218.
[7] COSTA, Gilciano Menezes. Op.Cit. pp. 153-171.

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Gilciano Menezes Costa é Professor de História e  Filosofia na rede estadual em Itaboraí, Professor de Cursos preparatórios para o Vestibular, Mestre em História Social (UFF) e autor da obra "A escravidão em Itaboraí: Uma vivência às margens do Rio Macacú (1833-1875)"