A origem e construção da Igreja de São João Batista de Itaboraí (1627-1782)

22/10/2015

Gilciano Menezes Costa

Fonte: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (1920)

A imagem publicada neste texto foi fotografada por Augusto Malta, em 1920, no período da Primeira República [1]. Essa imagem representa um valioso registro da Igreja de São João Batista [2]. 

A origem desta igreja está associada à Capela de Nossa Senhora da Conceição que foi construída “na fazenda que foi de João Corrêa da Silva, em Iguá [3], distrito de Tapacorá [4] (...).” Nesta Capela, em 1627, foi criado o Curato [5], que com o decorrer dos anos foi transferido para a Capela de São João Batista, erigida em uma colina por João Vaz Pereira, a qual já estava pronta em 1672. [6] Em 1679, foram iniciados na Capela de São João Batista os exercícios de Curada, tornando-se independente da Matriz de Santo Antonio de Sá. Através do Alvará de 18 de Janeiro de 1696, este Curato foi elevado à categoria de Paróquia [7] de natureza coletiva. Por ter sido construída “com paredes de pau a pique”, esta Capela entrou em estado de ruínas. [8] 

Diante disso, em janeiro de 1725, o já citado João Vaz Pereira iniciou a construção da nova igreja, “distante 20 braças da primitiva, sob a mesma invocação”. [9] Tais obras foram concluídas apenas em 1742. Outro nome que se destacou, neste contexto, é o de Domingos Vaz Pereira por ter doado as terras onde a Igreja foi construída. Além deste, a contribuição dada pelo Capitão Manuel Antunes Ferreira, a partir de 1729, foi determinante para continuação e conclusão destas obras. 

Desde o período colonial as Igrejas se constituíam em espaços de socialização, que iam além da vida religiosa e a ajuda dos moradores em suas edificações ocorriam com uma certa frequência. [10]

Assim, pelo testamento do Mestre de campo Miguel Antunes Ferreira, filho do capitão Manuel Antunes Ferreira e D. Catharina de Lemos e Duque-Estrada, consta que a Igreja Matriz de São João Batista de Itaboraí recebeu também a cooperação de D. Catharina “com dinheiro, madeira, pedra, carro e escravos”. Para ela foi concedido um altar, onde “D. Catharina colocou N. S. do Pilar,” e “sepultura para si, seus filhos, e netos e mais descendentes”. [11]

Desta forma, parte dos escravos que construíram a Igreja Matriz de São João Batista de Itaboraí pertenciam ao capitão Manuel Antunes Ferreira, que era senhor de engenho em Tapacorá. Para os preceitos da época, esses escravos foram enviados por sua esposa como um gesto de devoção religiosa ao catolicismo. 

Vale destacar que o envolvimento desses escravos na construção da Igreja, possivelmente, não se realizou apenas pelos mandos de seus proprietários, e tampouco se restringiu à devoção religiosa, visto que o trabalho desses cativos, nestas obras, constitui-se em solo fértil de negociação, logo, de busca pela liberdade.

Outras obras de ampliação ocorreram pelos anos de 1767, 1772 e 1782, momento em que se concluiu a estrutura que mais se aproxima da Igreja atual. [12]

____________________
Fontes e Bibliografia:
[1] Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCR). Augusto César Malta de Campos foi um fotógrafo que inaugurou o fotojornalismo brasileiro. Para saber mais ver: KOSSOY, Boris. A fotografia como fonte histórica: introdução à pesquisa e interpretação das imagens do passado. São Paulo: Secretaria da Ind., Com., Ciência e Tecnologia, 1980.
[2] Igreja São João Batista foi tombada pelo IPHAN - Nº Processo: 0616-T-60 - Livro Histórico Nº inscr.: 425 ;Vol. 1 ;F. 069 ;Data: 18/03/1970.
[3] Região conhecida atualmente como Venda das Pedras.
[4] Termo utilizado para se referir à Freguesia de São João Batista de Itaborahy. A partir do terceiro decênio do século XIX, a denominação Itapacorá (em substituição de Tapacorá) passou a ser mais utilizada, sendo mencionada para uma área específica, sobretudo para a região de Pachecos. 
[5] Curato é um termo religioso para designar a povoação pastoreada por uma cura (vigário de aldeia). FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova fronteira. 1993. p.157.
[6] Pizarro argumenta que um dos motivos da transferência do Curato se deu devido ao fato da Capela de São João Batista ser maior. É possível também que o fluxo de pessoas que circulavam na região em busca de água potável, devido à presença de uma fonte nas proximidades, tenha contribuído para essa transferência. 
[7] Divisão territorial de uma diocese sobre a qual tem jurisdição um pároco (padre). Também se aplica como sinônimo de freguesia. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova fronteira. 1993. p. 406.
[8] ARAÚJO, José de Souza Azevedo Pizarro. (Monsenhor Pizarro) O Rio de Janeiro nas visitas pastorais de Monsenhor Pizarro: Inventário da arte sacra fluminense. 1753 – 1830. RJ. INEPAC. 2009. Vol. II. pp. 223-245. ARAÚJO, José de Souza Azevedo Pizarro. Memórias Históricas do Rio de Janeiro. RJ. Edição original, 1820, Imprensa Régia. Livro II. pp. 199-209.
[9] IDEM.
[10] SOARES, Mariza de Carvalho Soares. Devotos da Cor: identidade étnica, religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro, século XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. p. 135.
[11] Testamento do Mestre de Campo Miguel Antunes Ferreira. 12 de Fevereiro de 1781.
[12] ARAÚJO, José de Souza Azevedo Pizarro. (Monsenhor Pizarro) O Rio de Janeiro nas visitas pastorais... Op.cit. p. 225.
____________________
Gilciano Menezes Costa é Doutorando em História Social da Cultura na UFF. Professor de História e Filosofia na Rede Estadual em Itaboraí e Professor de História na Rede municipal de Magé. É autor da Dissertação de Mestrado (UFF) intitulada "A escravidão em Itaboraí: Uma vivência às margens do Rio Macacu (1833-1875)". Disponível em: https://docs.wixstatic.com/ugd/5ada89_277b353622e44d018f55ecdb12aa561a.pdf