Os escravizados tropeiros em Itaboraí (Século XIX)

21/03/2015

Gilciano Menezes Costa

Fonte: Debret e o Brasil - Obra Completa

“Carregadas de produtos de exportação ou de gêneros de subsistência, as tropas de burros percorreram ativamente o pais durante todo o século XIX e cortaram em todas as direções (...)” [1]. A circulação intensa dessas tropas contribuiu para a formação de núcleos de povoamento e para o desenvolvimento das localidades já existentes.

Em Itaboraí, o transporte realizado pelos tropeiros teve mais destaque nas áreas próximas aos portos localizados no Rio Macacu e no Rio Aldeia, como o Porto de Vila Nova, o de Sampaio e o Porto das Caixas. Esses portos, por serem entrepostos comerciais, tornaram-se áreas de passagem pelo Leste do Recôncavo da Guanabara, como pode ser percebido pelo fluxo constante de viajantes e tropeiros na região [2].

A primeira metade do século XIX foi o período de maior expressão do Tropeirismo em Itaboraí e arredores. A estrada que ligava Cantagalo a Porto das Caixas, passando por Nova Friburgo, representou uma das principais regiões, na Província do Rio de Janeiro, por onde essas tropas passaram. Além do transporte de pessoas, esse caminho era percorrido, principalmente, para realizar o escoamento da produção agrícola das regiões localizadas “serra acima”, sobressaindo a movimentação do transporte de café vinda de Cantagalo [3].

Semelhante ao escravizado pintado por Jean-Baptiste Debret na imagem dessa postagem [4], os cativos tropeiros usufruíam das viagens e deslocamentos para construir hábitos de autonomia e desenvolviam com isso condições expressivas de negociação e resistência à escravidão. “Encontravam espaços de valorização social e independência, mormente porque o escravizado tropeiro era sempre um escravizado de confiança, que gozava o privilégio da mobilidade espacial, sem poder o senhor, ao menos ostensivamente, vigiá-lo”. [5]

Sua permanência nas tropas era condicionada, principalmente, pelas possibilidades de alcance da liberdade, do que pela exclusividade do uso da violência. Em sua grande maioria, o escravizado tropeiro era um escravo de ganho [6]. A prática do pecúlio [7], entre outras, representou uma das intenções presentes nas negociações com seu senhor. O proprietário que rompesse esse laço aumentaria as possibilidades do não retorno de seus cativos. [8]

Nos jornais do século XIX em Itaboraí, os anúncios de fugas dos escravizados constantemente os citavam com especializações em variados ofícios. Nessa região, os valores da recompensa desses escravizados tendiam a ser maiores do que os escravizados de roça ou de serviços de casa e costura. No caso dos tropeiros, a continuidade da publicação da fuga em diversos anos, além de demonstrar que o cativo continuava fugido, assinalava também o nível de circulação desses escravizados na sociedade escravocrata. Esse foi o caso do escravo Ivo, tocador da tropa que, em 1855, passou pelo Porto das Caixas [9].

O Tropeirismo não foi uma atividade com o uso exclusivo da mão de obra escrava, mas sim, um movimento que favoreceu a circulação de pessoas independente de sua condição social [10]. Assim, tanto os escravizados, como libertos e livres, participaram das tropas que transportavam pessoas e mercadorias pelos sertões do Macacu.

Ainda assim, essa movimentação de tropas representou um dos ofícios que contribuiu para ampliação dos espaços de sociabilidade dos escravizados negros em Itaboraí. Uma especialização que, devido a sua mobilidade, foi capaz de gerar a confluência entre os espaços urbanos e rurais. Uma atividade que gerou variados níveis de negociação e, consequentemente, resistências à escravidão. O estudo desta prática viabiliza o reconhecimento da diversidade das relações escravistas, apresentando um olhar interpretativo que busca compreender as complexidades sociais desenvolvidas fora da área da grande lavoura monocultora exportadora.

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Fontes e Bibliografia:

[1] FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. 4. ed. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997, p. 66.
[2] Para saber mais ver: COSTA, Gilciano Menezes. A escravidão em Itaboraí: Uma vivência as margens do rio Macacu (1833-1875). Dissertação de Mestrado. Niterói: UFF, 2013. Disponível em: <http://historiadeitaborai.blogspot.com.br/2014/07/style-margin-12px-auto-6px-auto-font.html>
[3] Relatório do Presidente de Província do Rio de Janeiro, 1851:36.
[4] Escravo negro conduzindo tropas na província do Rio Grande. Aquarela sobre papel; 15,3 x 22,1. 1823. BANDEIRA, J., LAGO, P. C. Debret e o Brasil: obra completa, 1816-1831. 2ª Ed. Rio de Janeiro, Capivara Ed.2008. p. 243.
[5] MACHADO. Maria Helena P. T. Sendo Cativo nas Ruas: a Escravidão Urbana na Cidade de São Paulo. IN: História da Cidade de São Paulo, (Paula Porta, org.), São Paulo: Paz e Terra, 2004, p. 26.
[6] Escravizados que realizavam tarefas remuneradas e entregavam, no término do serviço, uma determinada soma a seu senhor ou senhora. O excedente dessa quantia ficava com o escravizado.
[7] Soma em dinheiro que os escravizados acumulavam com o consentimento do seu senhor ou senhora.
[8] Para saber mais ver: COSTA, Gilciano Menezes. Os escravos tropeiros em Itaboraí: Uma análise dos relatos do viajante Hermann Burmeister. Anais do XVI Encontro Regional de História da Anpuh-Rio: Saberes e práticas científicas. 2014. Disponível em: <http://historiadeitaborai.blogspot.com.br/2014/08/view-os-escravos-tropeiros-em-itaborai.html>
[9] Jornal O Popular. 21/03/1855. N. 101, quarta, p.4. Biblioteca Nacional.
[10] BEZERRA, Nielson Rosa. Mosaicos da Escravidão: identidades africanas e conexões atlânticas do Recôncavo da Guanabara (1780-1840). Tese (Doutorado em História). Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História, 2010, p. 62.

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Gilciano Menezes Costa é Doutorando em História Social da Cultura na UFF. Professor de História e Filosofia na Rede Estadual em Itaboraí e Professor de História na Rede municipal de Magé. É autor da Dissertação de Mestrado (UFF) intitulada "A escravidão em Itaboraí: Uma vivência às margens do Rio Macacu (1833-1875)". Disponível em: https://docs.wixstatic.com/ugd/5ada89_277b353622e44d018f55ecdb12aa561a.pdf