O Convento de São Boaventura (1649-1841)

21/07/2015

Gilciano Menezes Costa

Fonte: Mosteiro de São Bento (1925)

Erguido na Freguesia de Santo Antonio do Cassarabú (Caceribu) [1], nas terras doadas pelo Capitão João Gomes Sardinha e sua mulher Margarida Antunes [2], o Convento de São Boaventura [3] teve sua fundação iniciada no dia “vinte de novembro de mil seiscentos e quarenta e nove”, com a construção de uma Casa Provisória, que foi utilizada de morada para os frades durante a construção do Convento [4].

O Convento de São Boaventura foi o quinto fundado dentro da Província da Imaculada Conceição e o décimo terceiro no Brasil. [5] No final do século XVII a Ordem Franciscana no Brasil estava organizada em duas Províncias [6]: a de Santo Antonio e a da Imaculada Conceição [7].

A criação do Convento de São Boaventura é resultado, principalmente, da ação missionária dos franciscanos e da busca por lugares menos ameaçados a invasões estrangeiras.

A construção do Convento [8] começou em 1660 e “durou dez anos, pois foi só no dia 4 de fevereiro de 1670, (...) que a comunidade se transladou para a nova Casa (...). “Durou este convento 114 anos, pois em 1784 empreendeu-se a sua reconstrução (...)”, momento em que os franciscanos da Ordem Terceira “fizeram Capela própria, separada da igreja conventual”[9].

A partir de 1784, o Convento de São Boaventura adquire as características arquitetônicas evidenciadas em suas atuais ruínas, tendo ao centro, a Igreja Conventual com a torre sineira em sua fachada; à esquerda, a Capela da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência; e à direita, o Convento, como pode ser observado na imagem desta postagem fotografada em 1925.

Dos 22 Conventos Franciscanos existentes até o século XVIII, apenas quatro possuíam noviciado, sendo o Convento de São Boaventura um deles. Seu funcionamento durou de 1672 a 1784. Algumas supressões ocorreram entre esses anos, o que fizeram com que o noviciado não funcionasse nos períodos de 1727 a 1750 e de 1764 a 1778. O período de florescência do noviciado ocorreu entre os anos de 1750 a 1763, chegando a ter, em 1762, um total de 25 noviços. “Foi nesse tempo que São Boaventura deu à Província religiosos muito distintos.” Entre alguns desses personagens, destacam-se Frei Antônio de Sant’Ana Galvão e Frei Mariano da Conceição Veloso [10].

Além do Noviciado, funcionou também em São Boaventura Escolas Primárias para os filhos da localidade, Seminário de Gramática e Casas de Estudo de Filosofia e Teologia. Desta forma, o Convento representou um dos primeiros espaços de ensino de Itaboraí e provavelmente do Leste do Recôncavo da Guanabara e do Vale do Macacu-Caceribu.

Um decreto do Marquês de Pombal, em janeiro de 1764, proibiu “a aceitação de noviços, por parte de ordens religiosas, sem que houvesse especial licença do governo”. Além disso, posteriormente foi “decretado o limite de número de noviços” que poderiam ser aceitos [11]. Possivelmente, essas medidas iniciaram a decadência do Convento de São Boaventura, embora ainda que de forma gradual, como pode ser observado com a sua própria reconstrução em 1784.

Considerar esse contexto, desenvolvido no âmbito de toda presença religiosa no Brasil, contribui para evitar o superdimensionamento de episódios locais como modelos explicativos para o fechamento do Convento. Nesse sentido, vale ressaltar que embora as “Febres de Macacu” [12],em 1829, tenham sido um dos fatores de seu fechamento, tais febres não iniciaram os problemas da Ordem Franciscana em São Boaventura, mas sim, impulsionaram um quadro de crise já existente [13].

O missionário metodista Daniel Parish Kidder visitou o Convento, em 1837, e relatou que o “Convento de Santo Antônio” (Boa Ventura) [14]“Era um grande edifício de imponente aparência externa, mas, bem mal-acabado por dentro”. Assinalou que existia “uma longa fila de dormitórios vazios”, um “velho órgão” e uma biblioteca composta por “um monte de velhos livros corroídos de traça, ao lado de algumas pilhas de manuscritos”. Citou que nas paredes laterais viam-se “diversas pinturas toscas, uma das quais parecia representar Cristo subindo da Cruz ao Céu (...)”[15].

Apesar de um tom depreciativo sobre o espaço religioso estudado, sua narrativa contribui para visualizar o cotidiano dentro do Convento nos anos próximos ao fechamento de suas portas, fato que ocorreu em julho de 1841. [16] Por essa narrativa foi possível constatar também a presença dos escravos conventuais em São Boaventura [17].

O Convento de São Boaventura foi cedido a uma Casa de Caridade, possivelmente, na década de 1850 [18]. Embora em estado de ruínas, os franciscanos foram seus proprietários até 1922, quando o venderam, junto com todo seu terreno ao redor, para a Abadia de Nossa Senhora do Monserrate do Rio de Janeiro. Essa propriedade, já com o nome de Fazenda Macacu e conhecida também como Fazenda Nossa Senhora das Dores de Macacu, ficou em posse da Ordem Beneditina até 1930 [19].
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Fontes e Bibliografia:

[1] Tombado na esfera Estadual em 1978 (processo E-03/33.714/78), na Federal em 1980 (processo nº 690-t-63, inscrição nº 476, Livro Histórico, H. 81, inscrição nº 540, Livro de Belas Artes, vol. 2, nº, iniciado em 28/04/1980) e na Municipal em 1995 (lei 1.305).
[2] Freguesia criada em dezembro de 1644 e elevada à Vila, em cinco de agosto de 1697, com a denominação de Vila de Santo Antônio de Sá. José Matoso Maia Forte argumenta que essa freguesia foi “a primeira das criadas no recôncavo e, mais antiga do que ela, só se apontava a da Sé do Rio de Janeiro”. FORTE, José Matoso Maia. Vilas fluminenses desaparecidas: Santo Antônio de Sá. 1934:37.
[3] LISBOA, Baltazhar da Silva. Annaes do Rio de Janeiro. Tomo VII. RJ. 1835, p. 222.
[4]CONCEIÇÃO, Apolinário. Epítome da Província Franciscana da Imaculada Conceição no Brasil. RIHGB, Vol. 296, Julho-Setembro, 1972, p. 131.
[5] JABOATÃO, Antonio de Santa Maria. Novo Orbe Seráfico Brasílico ou Crônica dos Frades Menores do Brasil. IHGB, Livro I, 1858, p.200. Frei Basílio Röwer argumenta que o Convento de São Boaventura “foi o quinto na ordem cronológica de suas fundações”. Contudo, não explicitou que o Convento foi o quinto construído na Província da Imaculada Conceição e não o quinto fundado no Brasil. ROWER, Frei Basílio. Páginas de História Franciscana no Brasil. Petrópolis, Vozes. 1941, p. 160.
[6] Conjunto de conventos que, preenchidos certos requisitos, constituem uma unidade com governo autônomo, dependente diretamente do Geral na forma das Constituições da Ordem Franciscana.
[7] TITTON, Gentil Avelino. A reforma da Província franciscana da Imaculada Conceição (1738-1740) (I). Revista de História, USP, nº 84, 1970. p. 312-315.
[8] Compreendendo o nível de dificuldade da construção do Convento, Alberto Ribeiro Lamego narra que “sua existência foi um “milagre” da pertinácia do colonizador em sua luta contra o brejo”. LAMEGO, Alberto Ribeiro. O Homem e a Guanabara. Rio de Janeiro: instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/Conselho Nacional de Geografia, 1964, p. 197.
[9] ROWER, Frei Basílio. Op. Cit., pp. 167 e 172.
[10] Ibidem. p. 175-178. Frei Galvão foi canonizado pelo Papa Bento VI em 11 de maio de 2007, tornando-se, segundo as crenças da Igreja Católica, o primeiro santo nascido no Brasil. Frei Veloso era botânico e primo de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. CRUZ, LUIZ. O primo de Tiradentes. Revista de História, 2011. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/o-primo-de-tiradentes> Acessado em: 06/03/2015.
[11] MIRANDA, Maria do Carmo Tavares de. Os Franciscanos e a Formação do Brasil. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 1969, p. 92.
[12] Febres palustres que assolaram, na primeira metade do século XIX, às regiões próximas às margens do rio Macacu. Para o ano de 1829, a Epidemia de Malária gerou maiores danos para a população dessas localidades.
[13] Da mesma forma, associar os motivos do fechamento do Convento com a decadência da Vila de Santo Antônio de Sá, possibilita o surgimento de equívocos consideráveis na investigação histórica. Ainda que suas histórias estejam entrelaçadas, pois o Convento estava localizado na sede administrativa da Vila, existem especificidades que as diferenciam, seja por questões contextuais de tempo, espaço ou política-administrativa. Como exemplo, entre outros, é anacrônico vincular a inauguração da primeira seção da Estrada de Ferro Cantagalo, em 1860, - sendo este um dos fatores da decadência da Vila, com mais impacto em sua Freguesia sede - com o fechamento do Convento, fato ocorrido no início da década de 1850.
[14] O Convento de São Boaventura recebeu diversas denominações com o decorrer dos anos: no século XVIII, o Frei Jaboatão chamava de S. Boaventura de Casserebú e Frei Apolinário da Conceição de São Boaventura da Vila de Macacu; no século XIX, Baltazar da Silva Lisboa nomeia de S. Boaventura da Vila de Cassarabú e de S. Boaventura de Macacu e J.C.R. Milliet de Saint Adolphe, assim como Kidder, chama de Santo Antonio.
[15] KIDDER, Daniel Parish. Reminiscências de viagens e permanência no Brasil: Rio de Janeiro e província de São Paulo compreendendo notícias históricas e geográficas do Império e das diversas províncias. Brasília Senado Federal. 2001, p. 161-162.
[16] ROWER, Frei Basílio. Op. Cit., p. 183.
[17] COSTA, Gilciano Menezes. As relações escravistas no Convento de São Boaventura. Revista Tessituras, Nº6, Maio de 2015, p. 82-101. Disponível em: http://historiadeitaborai.blogspot.com.br/2015/05/artigo-publicado-na-revista-tessituras.html e http://www.revistatessituras.com.br/arquivo/5.pdf .
[18] A arquiteta Ana Maria Moraes Guzzo argumenta que, “em 1855, (...) o Convento foi cedido a uma Casa de Caridade,” discordando, desta forma, do Frei Basílio Röwer, que mencionou o ano de 1835 como o momento em que ocorreu esse episódio. Embora não se tenha consenso desta data, o fato é que a condição apresentada pelos franciscanos para esta concessão, era “de que os responsáveis reservassem uma cela para um representante da Ordem Franciscana”. GUZZO. Ana Maria Moraes. O Convento de São Boaventura de Macacu na arquitetura franciscana brasileira. 1999. Rio de Janeiro: PROARQ – FAU / UFRJ. Dissertação de mestrado, p. 115.
[19] Além da Fazenda Macacu, os Beneditinos também foram proprietários da Fazenda Escurial em Porto das Caixas. Para saber mais ver: Inventário dos bens imóveis de interesse histórico e artístico do estado do Rio de Janeiro. INEPAC.

 

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Gilciano Menezes Costa é Professor de História e  Filosofia na rede estadual em Itaboraí, Professor de Cursos preparatórios para o Vestibular, Mestre em História Social (UFF) e autor da obra "A escravidão em Itaboraí: Uma vivência às margens do Rio Macacú (1833-1875)"