Avenida 22 de maio: um espaço para uma

análise social, econômica e política de Itaboraí 

14/08/2016

Gilciano Menezes Costa

Fonte: IBGE (Década de 1970)

Fotografia da avenida 22 de maio tirada no início da década de 1970 no centro da cidade [1]. Como forma de perceber a mudança no lugar, notem que a loja de material de construção do lado direito da imagem é o espaço onde funciona atualmente, em 2016, o Mercadão de 1,99.

A 22 de maio é a principal avenida de Itaboraí. Localizada no distrito sede da cidade [2], essa avenida passa pelo centro do município e corresponde a todo trecho compreendido entre o viaduto da BR-101, em São Joaquim, e o viaduto da localidade de Duques, tendo 9.3 km de extensão. [3].

A urbanização da cidade se desenvolveu, principalmente, nas proximidades dessa avenida, impulsionando, desta forma, uma concentração populacional no distrito sede de Itaboraí [4]. 

Isso é confirmado pelos dados do Censo de 2010, que mostra que de um total de 218.008 habitantes no município, o distrito de Itaboraí possui o maior quantitativo de residentes da cidade e o maior número de habitantes por espaço urbano. São 107.117 pessoas que residem neste distrito, sendo todos considerados moradores no espaço urbano. 

Segundo esse censo, em Itaboraí, quase sua totalidade de habitantes, 215.412, residem no espaço urbano, enquanto apenas 2.596 pessoas no meio rural. Com esses dados é possível confirmar a constatação da concentração urbana e populacional no distrito sede, visto que essa região possui 49.7% do total da população residente no espaço urbano e 49.1% do total da população da cidade [5].

Com a construção do desvio da rodovia BR 101 e a consequente “diminuição” do trânsito na 22 de maio, em meados dos anos de 1980, o distrito sede obteve um crescimento ainda maior no setor de comércio e serviços. Além do comércio local, diferentes redes empresarias passaram a instalar suas franquias nas proximidades da avenida, entre outras, encontra-se empresas nos setores de Fast food, supermercados, restaurantes, lojas de construção civil, eletrodomésticos e eletrônicos. 

Os principais bancos também estão localizados nas proximidades da avenida, assim como a maior parte do aparato administrativo da cidade, que está localizado, sobretudo, na praça Marechal Floriano Peixoto [6]. 

A partir do anúncio da instalação do COMPERJ [7], em 2006, a população de Itaboraí aumentou, alcançando uma estimativa, em 2015, de 229.007 habitantes [8]. Comparando com o censo de 2010, através desta estimativa, projetou-se um aumento de 10.999 habitantes em apenas 5 anos, correspondendo, desta forma, a um crescimento demográfico de 5% neste curto período de 5 anos. 

A vinda de pessoas de diferentes estados do país, em busca de empregos, foi determinante para este crescimento. Contudo, com a divulgação da paralisação de boa parte das obras do COMPERJ [9], em 2015, ocorreu uma queda da população em Itaboraí, visto que esse fato gerou uma diminuição dos postos de trabalho na cidade. 

Ainda que os dados dessa queda não tenham sido divulgados pelo IBGE, através do exercício da História do Tempo Presente, é possível perceber essa redução da população com os testemunhos de moradores sobre a diminuição de matrículas em escolas, nas vendas do comércio e na diminuição da circulação de pessoas e carros na cidade. A quantidade expressiva de testemunhos de pessoas com memória viva, que buscam narrar o fenômeno em que vivem, dão a base para a constatação dessa queda [10]. 

Do ano de 2006 a 2015, o qual denomino de período da expectativa e decepções com o COMPERJ e que corresponde do anúncio de sua instalação até a paralisação de parte de suas obras, Itaboraí passou por intensas transformações. Neste período, novamente as proximidades da avenida 22 de maio, no distrito sede, foram mais contempladas com os investimentos que entraram na cidade, do que nos outros distritos. 

Apesar da refinaria estar localizada no distrito de Porto das Caixas [11], boa parte das empresas que ofereceram seus serviços ao COMPERJ, neste período, optaram em montar seus escritórios ao redor dessa avenida, assim como empresas de hotelaria e novos estabelecimentos de comércio. Foi nesse contexto que a verticalização da cidade se intensificou e as empresas ligadas à construção civil cresceram expressivamente na região. Novos prédios, condomínios e casas foram construídos e em sua grande maioria no distrito de Itaboraí, o que intensificou ainda mais a concentração urbana e, principalmente, populacional neste distrito.

A ausência de políticas públicas para desenvolver as estruturas urbanas de outros distritos - como o fornecimento de água potável, saneamento, pavimentação, segurança, saúde, educação, energia elétrica, coleta de lixo e novas linhas de transporte coletivo - inviabilizaram a descentralização dos investimentos na cidade e impulsionaram os problemas já existentes em Itaboraí.

Não foi o rápido e expressivo crescimento populacional que criou os problemas do município, como alguns gestores insistem alegar, mas sim a ausência de iniciativas públicas contínuas para a criação de uma estrutura capaz de suportar as consequências que o investimento de grandes dimensões, como o do COMPERJ, gera para uma cidade. A empolgação do anúncio da construção da refinaria, pelo poder público local, não foi acompanhada da responsabilidade administrativa em se investir na cidade considerando os impactos sociais, ambientais, culturais e econômicos que vieram juntos com este empreendimento. 

Desde o anúncio da instalação do COMPERJ, em 2006, até o presente momento, uma característica marcante esteve presente nas últimas três gestões da prefeitura: a falta de um planejamento urbano que atenda às condições básicas da população em TODOS os distritos [12]. 

Apesar da receita da prefeitura de Itaboraí ter quadruplicado no período de 4 anos, de 2009 a 2013 [13], o dinheiro obtido não foi convertido em melhorias na estrutura da cidade. As condições precárias da avenida 22 de maio - com muitos buracos e sem monitoramento dos semáforos - acompanhada da precarização da educação e da saúde pública demonstram, de forma clara e gritante, a falta de comprometimento do poder público local em retornar para a cidade, e consequentemente para a população, o que foi arrecadado com o COMPERJ. 

Nesse sentido, a 22 de maio é mais que uma avenida, é também um indicador da falta de zelo e preocupação de um gestor com Itaboraí. É como muitos itaboraienses dizem: “se na 22 de maio, que é no centro da cidade está assim, esse descaso todo, imaginem em outros distritos do município”. A vida segue e a expectativa de uma nova fase do COMPERJ, com a retomada definitiva das obras, representa um anseio compartilhado por muitos. 

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Fontes e Bibliografia:

[1] Fonte: AMB
[2] O município de Itaboraí possui uma organização administrativa baseada em oito distritos, são eles: 1º Itaboraí, distrito sede; 2º Porto das Caixas; 3º Itambi; 4º Sambaetiba; 5º Visconde de Itaboraí; 6º Cabuçu; 7º Manilha e 8º Pacheco. Cadernos Itadados. Secretaria Municipal de Planejamento e Coordenação. PMI, 2006. p.20.
[3] Lei nº 1757 de 10 de julho de 2002. Disponível em: http://www.legislaitaborai.com.br/leis/2002/1757.pdf Acessado em 13/08/2016. Google maps: Disponível em:https://www.google.com.br/maps/dir/-22.7541043,-42.8895292/-22.7346288,-42.8062473/@-22.7322717,-42.8256546,14.25z/data=!4m2!4m1!3e0 . Acessado em 13/08/2016.
[4] O distrito sede possui o mesmo nome do município de Itaboraí.
[5] Censo demográfico de 2010. IBGE. População de Itaboraí distribuída em 8 distritos: 1º Itaboraí: 107.117; 2º Porto das Caixas: 3.782; 3º Itambi: 23.111; 4º Sambaetiba: 4.867; 5º Visconde de Itaboraí: 8.201; 6º Cabuçu: 8.353; 7º Manilha: 58.572; 8º Pacheco: 4.005.
[6] A distância da praça Marechal Floriano Peixoto até a 22 de maio, pela rua Fidelis Alves, é de 180 metros. Ver Google Maps.
[7] PETROBRAS. Petrobras anuncia localização do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro. 28/03/2006. Disponível em: http://www.investidorpetrobras.com.br/pt/comunicados-e-fatos-relevantes/petrobras-anuncia-localizacao-do-complexo-petroquimico-do-rio-de-janeiro-0/Acessado em: 13/08/16.
[8] População estimada em 2015. IBGE.
[9] PETROBRAS. Estamos tomando todas as medidas para que obras no Comperj não sejam paralisadas. 29/09/15. Disponível em: <http://www.petrobras.com.br/fatos-e-dados/estamos-tomando-todas-as-medidas-para-que-obras-no-comperj-nao-sejam-paralisadas.htm>. Acessado em: 13/08/16.
[10] FICO, Carlos. História do Tempo Presente, eventos traumáticos e documentos sensíveis: o caso brasileiro. Varia hist. [online]. 2012, vol.28, n.44. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/vh/v28n47/03.pdf>. Acessado em: 13/08/2016.
[11] Plano Diretor de Itaboraí. Revisão 2014/2015. Porto das Caixas. p.24.
[12] Respectivamente as três últimas gestões foram realizadas pelos seguintes prefeitos: Cosme José Salles (2005-2008); Sergio Alberto Soares (2009-2012); Helil Cardozo (2013-2016). 
[13] Ver: LAMARÃO, Marco Vinicius Moreira. A expectativa do COMPERJ e Itaboraí: da cidade do futuro ao futuro da cidade. História de Itaboraí e Cercanias: Pesquisa, Memória e Educação. 11/10/2015. Disponível em: <http://https://www.facebook.com/351048125067306/photos/a.353940421444743.1073741830.351048125067306/466511913520926/?type=3&theater>. Acessado em: 13/08/15

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Gilciano Menezes Costa é Doutorando em História Social da Cultura na UFF. Professor de História e Filosofia na Rede Estadual em Itaboraí e Professor de História na Rede municipal de Magé. É autor da Dissertação de Mestrado (UFF) intitulada "A escravidão em Itaboraí: Uma vivência às margens do Rio Macacu (1833-1875)". Disponível em: https://docs.wixstatic.com/ugd/5ada89_277b353622e44d018f55ecdb12aa561a.pdf